A obesidade e a Sociedade

Entre os adultos, mas especialmente quando se trata das crianças, os problemas do peso, e em particular a obesidade, foram tomando nas nossas sociedades uma avassaladora dimensão. A sua importância pode estar em sintonia com a percepção justa da realidade – pela frequência quantificável da obesidade, pelos custos que objectivamente acarreta, pelo consumo de cuidados de saúde a que já obriga. Mas há também uma carga que poderemos descrever como simbólica (se a oposição com a real se pode apresentar nestes termos) – pela ameaça em que se vem transformando à imagem que as pessoas se fazem de si, pelo que significa de detonador de uma espécie de polícia das escolhas individuais, que um espírito sanitarista cheio de fundamentos higienistas sociais faz reviver; e sobretudo porque num curto espaço de tempo faz conviver categorias mentais complexas, as que trouxeram as populações desenvolvidas da fome para a abundância, ou, ainda mais dramaticamente, num mesmo tempo confronta as populações pobres, sem alimentação e água potável, com as sociedades ricas do desperdício.

E pode mesmo pensar-se na obesidade como um indutor de desperdício, ou, pelo menos, de gastos evitáveis. Foi preciso aumentar os carros para transportar os bebés porque uma proporção de crianças é obesa desde muito cedo e as suas medidas estavam para lá dos padrões comuns fornecidos pelo mercado. A cirurgia estética, nomeadamente a lipoaspiração, cresceu 118% entre 1997 e 2005 nos Estados Unidos da América. Também na América foram aumentados os tamanhos das cadeiras dos estádios de basebol, demasiado estreitos e incómodos para uma proporção crescente dos espectadores. Em 2000, o excesso de peso dos passageiros custou às companhias aéreas americanas 1325 mil milhões de litros de combustível adicional e o peso que em si puseram esses passageiros custou a libertação para a atmosfera de mais quase quatro toneladas evitáveis de dióxido de carbono. Há portanto uma enorme quantidade de custos inespecíficos, de que estes exemplos extraídos de um livro de William Reymond (Toxic – obésité, malbouffe, maladie: enquête sur les vrais coupables, Flammarion, França, 2007) são apenas uma indicação desordenada. No entanto, há que se lembrar que ao mesmo tempo se observa um peso extraordinário na factura de gastos em saúde, estimando-se que, na União Europeia, a obesidade seja responsável por cerca de 7% dos custos em cuidados de saúde, percentagem que irá aumentar dada a tendência crescente na prevalência da obesidade.

Pelas consequências económicas e financeiras mas também pelos sofrimentos individual e social que são cada vez mais reconhecidos, e ainda pela percebida frequência crescente do fenómeno em todos os países, terá Richard Carmona, então surgeon general (uma espécie de ministro da Saúde) dos Estados Unidos da América, afirmado que a obesidade “ameaça tanto quanto o perigo do terrorismo que conhecemos. A obesidade é um ataque terrorista que nos devasta desde dentro” e acrescentou, com toda a carga simbólica que a comparação possuía, que, “se não fizermos nada, a grandeza das consequências desta ameaça ultrapassará largamente o 11 de Setembro ou qualquer outro ataque terrorista”.



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